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domingo, 1 de novembro de 2009

Halloween II - A missão

Dessa vez o Halloween não empolgou. Não sei se a culpa é da temperatura de 0C, bem abaixo do que fez ano passado, ou se sou eu que estou de saco cheio mesmo. A verdade é que Dekalb deprime a gente. Minhas amigas brasileiras já haviam me avisado. Mas mesmo os americanos dizem isso. Quem vem de outras partes dos Estados Unidos pra cá, também detesta. No começo é muito bonitinho ver esquilinhos, coelinhos, etc, mas depois a realidade aparece, nua e crua, e bem gelada!!!! Falando nisso, esse outubro foi o mais, ou um dos mais frios e chuvosos da história. O tempo bom aqui durou mais ou menos um mês depois que cheguei, e é só. Aqui já fez -3C na segunda semana de outubro, ou seja, pelo menos um mês antes do normal.

Eu e Alejandro tocamos hoje num restaurante de comida árabe novo que abriu aqui. Fomos praticamente de graça pra dar uma força pro dono, que é um grande músico, Omar, percussionista natural da Síria. Mas pra mim foi mais uma desculpa pra não ter que fazer nada que me lembrasse do Halloween, além de testar os novos equipamentos que comprei. Depois fomos no Stanley's. Eu, meio que ingenuamente, achei que lá seria um Halloween light, mas me enganei redondamente, porque eu e Alejandro eramos alguns dos únicos a não usar fantasia. Essa parte das fantasias é até bem divertido, mas meu mau-humor era grande o bastante pra não me fazer apreciar nem mesmo isso. No fundo fico irritado com um bando de estudantes bêbados, gente gritando, e pessoas "super legais", mas só quando estão bêbadas e com quem elas conhecem. Dekalb, definitivamente não é lugar pra alguém como eu, estrangeiro, mais de 30 anos.

Falando em pessoas super legais, ta aí algo que não posso dizer dos meus novos roommates. Prá mim não tem nada que me incomoda mais do que pessoas que são super legais entre si, mas cagam pra quem não faz parte da panela. Estes são meus roommates. Eu decidi ficar na mesma casa porquê o único problema que tive no outro ano foram as inúmeras festas, que aconteciam porquê todos eram amigos. Pensei eu, "bom, o outro grupo vai ser diferente, e isto foi uma coincidência". Pois, de novo, amiguinhos entre si alugaram todos os quartos de baixo (três ao todo). Ramon e a namorada Tera ficam em um, Lewis em um, e Jamie e Eric em outro. Ainda não descobri se o Eric mora aqui meio "escondido", mas presumo que sim. Quer dizer, meu landlord Ray Conley não sabe disso. Se soubesse, eles teriam que pagar uma taxa adicional. Mas não sei na verdade, porque nunca conversei com eles. Em cima, além de mim, moram Allison, uma antipática que faz parte da panela de baixo, Zacharias, que fica aqui só três vezes por semana e raramente vejo e Ann, que foi a única pessoa que conversei, mas com todo respeito, é uma crente caipira que nunca sai do quarto. Me sinto mal falando assim, porque ela é simpática, mas na verdade como todos outros, adota a postura "quanto menos contato, melhor". Ela passa pela casa praticamente correndo, e como os demais, faz sua comida no microondas e leva pra comer no quarto.

A panela debaixo não faz festas com tanta frequência, mas ficam acordados praticamente todos os dias até 4 da manhã, abrindo e fechando portas e falando alto. Quase sempre tem um ou mais amigos bêbados que dormem aqui no sotão. Acordam 2h da tarde e passam o dia jogando vídeo-game e fumando maconha. Não tenho nada a ver com isso, mas fico pensando que tipo de educação eles tem aqui que exige tão pouco deles. O que me deixa puto nisso tudo é a falta de respeito com os demais. Eles fazem a zona que querem, a hora que querem, nunca lavam a louça, convidam milhões de pessoas pra dormir aqui, e não fazem a menor questão de ser simpáticos. Hoje por exemplo acordei desci pra tomar café. Eric, Lewis e Allison estavam conversando na cozinha, e assim que cheguei eles imediatamente sairam e foram pra quarto do Eric (na verdade do Jamie) e trancaram a porta.

Quando a coisa chega nesse nível eu sempre me pergunto o que eu posso ter feito. Eu fiz um esforço pra me comunicar no começo, puxei assunto, etc, mas nunca consegui, salvo raras exceções, mais do que respostas monossilábicas. O Ramon foi o único que fez algum esforço pra ser legal, mas não durou muito. A Allison e Jamie praticamente viram a cara quando estou por perto, às vezes também a Tera. O Eric, talvez pela condição de "agregado" já puxou assunto algumas vezes, e o Lewis ao menos é um gordinho simpático, e sorri pra mim. As vezes acho incrível que a essa altura da minha vida - convenhamos, não sou mais nenhuma criança - esse tipo de coisa ainda me incomoda. Mas me incomoda, e muito. Eu penso que se você mora com alguém, algum tipo de interação é fundamental. A indiferença que sinto nesse país não vem só deles, mas de muitas outras pessoas, como por exemplo o saxofonista da big band que senta bem do meu lado e não diz nem oi. Mas já acostumei, já que ensaiamos 4x por semana. Eu sei que não é pessoal. Tento começar a agir como eles, vou lá, faço minhas coisas, tento não olhar pra ninguém, e converso só quando é imprescindível e fico na minha. Prá mim isso vai muito contra minha natureza, mas preciso aprender a jogar as regras do jogo.

Não quero ser injusto também. Conheci pessoas que tem sido muito legais comigo. Patrick Terbrack é um grande amigo e também Jack Zara, um grande baixista casado com uma brasileira e que tem me dado uma super força. Vou falar mais deles em posts futuros.

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Notícias rápidas. Esse ano começou promissor pra mim. Na minha volta pra cá, logo na primeira semana me comunicaram que faria parte da Liberace, que é o principal combo (banda até 7 membros) da NIU. Isso me dá um status de faculty (professor), já que agora sou oficialmente grad assistant, algo como monitor no Brasil. Sou encarregado do Latin Jazz Ensemble além de ser "obrigado" a tocar onde quer que a Liberace tenha que tocar. Em resumo tenho que "trabalhar" 10h/semana pra universidade, em troca de algum $$$ + a tuition (que já tinha). Mas o mais legal é que toco com os melhores músicos da universidade e somos bastante respeitados por aqui. Além disso fui promovido de big band e agora toco na Jazz Ensemble, a big band top aqui da NIU. Eu acabei fazendo uma boa audition, e também a verdade é que a universidade está carente de guitarristas, o que fez com que eu não tivesse nenhum concorrente de peso. Semana que vem a Jazz Ensemble vai estar em tour com um special guest, Don Braden. Vamos viajar por algumas cidades e fazer o já tradicional concerto semestral no Duke Ellington Ballroom. Vamos ver se escrevo um pouco sobre isso.

Minhas atividades na Oaklawn Academy retornaram faz duas semanas. Tem sido um pouco mais difícil conciliar por causa dos horários da big band, mas estou dando meus pulos. Fora isso tenho feito umas gigs em Chicago com o Luciano e com o Marcão (Marcos Oliveira). Aparentemente consegui minha primeira gig fixa às quintas feiras num pequeno café, o Café Ciao. Não sei se vai vingar porque o lugar é bem pequeno e o movimento não tem sido lá essas coisas... Let's see.

Bom, por hoje só pessoal. Tentarei ser mais assíduo por aqui, vamos ver se consigo. Desculpem meu humor, sei que não está dos melhores. Saudades de vocês, dos amigos, da namorada (agora noiva), de picanha, do calor (humano e climático), da mamãe e de português (o idioma). Take care,

Júlio

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dekalb News, últimas semanas.

Quem está acompanhando o blog já sabe que minhas aulas acabaram há um mês. Eu fiquei por conta da Oaklawn Academy, que teve sua graduação nesse fim de semana. Eu fiquei muito emocionado, tenho que admitir. Eu selecionei alguns alunos pra tocarem na cerimônia de formatura e passei as duas últimas semanas preparando-os, ensaiando, etc. Eles se engajaram de verdade no projeto e a formatura em si levou muita gente as lágrimas. A energia que eu senti tocando com eles lá no palco foi incrível. Eles me surpreenderam também, porque eles fizeram bonito, mesmo sob pressão e sem nenhuma experiência.

Eu tive mais de 20 alunos em Oaklawn e não tive o menor problema com nenhum deles. Eu me afeiçoei muito por aqueles garotos e foi muito gratificante ver que todos fizeram questão de me apresentar aos pais que vieram de longe pra buscar os filhos de volta pra casa. Ano que vem, digo, semestre que vem, vai ser uma outra história, porque novos estudantes vão chegar, e todos os que estavam aqui já terão ido embora.

Também nesse período começaram enfim a pintar umas gigs em Chicago. A maioria delas foi por conta do Marcão, um percussionista carioca que está a 15 anos em Chicago e ftoca no grupo Bossa Três, muito popular por aqui. Tocamos algumas vezes num restaurante francês em South Barrington, um subúrbio de Chicago e também no Sinhá, um restaurante caseiro em Chicago que promove almoços temáticos com comida brasileira. A semana em que tocamos quatro vezes me fez lembrar meus bons tempos no Brasil. Tava quase esquecendo que era músico...

Depois de uns dias sozinho aqui na casa, dois novos roommates aportaram. Primeiro foi a Michelle e logo depois chegou o Joe. O Joe vi poucas vezes. A Michelle é muito simpática e tem astral ótimo. Um dia calhou de estarmos os três por aqui e ficamos um bom tempo tomando vinho e jogando conversa fora. Sei que tem mais uma rommate pra chegar, mas pelo jeito não vou conhece-la. Quando voltar pra cá no meio de agosto eles provavelmente já não vão estar mais aqui, já que o contrato deles é só pelo Summer. É muito comum aqui o pessoal estudar no Summer, num um intensivão que dura quased dois meses. Quase todos aproveitam também pra trabalhar. Já no Fall, a casa vai receber novos moradores, e aí, bom... Dekalb News 2009!


O diretor Javier Valenzuela com os alunos


Eu e a galera toda!


Minha "chefa", Melinda McLaughlin


Tive que virar baixista e ainda faço cara feia!


No palco!


Minha nova rommate Michelle


Meu rommate Joe e meu amigo Patrick comendo mosca!



sábado, 9 de maio de 2009

Fim das aulas

Sim, isso mesmo, comecinho de maio, acabaram as aulas. Acabou o "ano", como se diz no Brasil. Essa semana foi a última semana de aula com as suas respectivas finals. A cidade se esvazia agora. Meus roommates todos se foram, e de vez. Eu fui o único a renovar o contrato aqui. Coisa chocante: eles fizeram uma limpeza na casa, e jogaram muitas coisas fora. Pacotes de cereais quase cheios, temperos, comida, móveis, ventilador, etc. Lixo. Eu comentei com um deles, "se você soubesse quanta gente passa fome no Brasil vocês não fariam isso". Eu realmente fiquei chocado quando vi um pacote de sucrilhos, que por sinal era meu, praticamente intacto, no lixo. E um pacotão de cream cracker (também meu) ainda fechado... no lixo. O desperdício americano é assustador e eles não percebem. Eles lavam louça naquele esquema de ensaboar tudo com a torneira aberta. Outro dia um deles fez uma campanha pra ajudar Darfur (onde???). Mas a solidariedade, só a distância mesmo...

Mas não quero falar mal deles. Eu realmente gosto desses caras, principalmente o Hunter e o Adam. Também do Brian, com seu espírito prático, consertando e organizando tudo (porque toda república sempre tem um engenheiro??). O Hunter foi quem me convidou pro Thanksgiving, em Outubro. Parece o mais politizado da casa, claro estudante de de Ciências Políticas, se eu não me engano. Curioso sobre o Brasil, as vezes conversávamos longamente sobre meu país, respondendo às perguntas dele. Mas interessante foi um dia quando eu olhava os seus livros e ele pegou um e falou assim, "esse é meu livro favorito: 'The Alchemist', from Paulo Coelho". E ele nem sabia que o autor era brasileiro. Mundo pequeno... O Adam também é um cara nota 10. Viajado, passou um mês na Índia. Parece que é sempre assim, os americanos mais bacanas são aqueles que abriram um pouco a cabecinha pro que acontece no resto do mundo.

Os meus roommates sempre foram me prestigiar em meus concertos na NIU. Sempre achei esse gesto muito bacana da parte deles. Um dia paguei o maior mico, porque eles foram pra lá depois de tomar umas, e o Mark, que não mora aqui, mas é como se morasse, começou a gritar meu nome no teatro: Jiuleo, Jiuleo!! O Rodrigo, que estava regendo a big band, ficou olhando pra mim com uma cara meio sem entender o que estava acontecendo. Cimento!

Nos últimos tempos eu acabei me afastando um pouco, já meio de saco cheio das festas e bebedeira deles. Tô ficando velho pra tanta balada. Fatalmente acabei me estranhando com um e outro por causa da gritaria em cima da minha cabeça, nas festas no sotão, que fica bem em cima do meu quarto. Coisas de quem mora junto. Mas a coisa esse semestre foi demais, e por muito pouco não tive que acionar meu landlord, o que seria problemático, já que todos eles são amigos e faziam tudo junto. No último mês, não sei se porque eles se tocaram, ou se porque estavam atarefados com o "fim do ano", mas a coisa deu uma amenizada e foram poucas as noites que precisei colocar meus tampões de ouvido.

Com a mudança deles, me dei conta que quase tudo na casa era deles: talheres, cafeteira, televisões, boa parte da louça, etc. Fui lá na Salvation Army (Exército da Salvação) comprar uns garfo e faca, se não ia ter que comer com a mão!

Eu fico aqui até dia 10 de junho, quando viajo ao Brasil. Parece que três pessoas estão chegando pro Summer. No Fall a casa recebe 6 novos moradores e aí terei novas histórias pra contar.
Estou estranhando a casa assim vazia e silenciosa. Vou sentir falta dessa moçada...


Eu e Hunter


Em círculo, da esq. pra direita: Mark, eu, Joe, Brian, Adam, Ryan e Hunter


Do fundo pra frente: Hunter, eu Brian, Justin, Ryan, Adam e Mark