quinta-feira, 27 de maio de 2010

O fim da jornada

Minha jornada pelos EUA coincidiu com minha jornada pela série Lost. Quando comecei a assistir Lost, já na terceira temporada, as coisas já se estavam se encaminhando para eu vir pra cá. Lost acabou neste domingo, quando falta pouco mais de um mês pra eu voltar pro Brasil.

Lost deu suas derrapadas e muita coisa ficou sem explicação, mas eu não tenho como negar que me emocionei muito no final, principalmente quando alguns dos personagens se reconheceram na "realidade alternativa" e rolaram curtos "flashbacks" sobre os acontecimentos da ilha. Eu sempre achei que o que fazia de Lost uma grande série não era a parte mística ou científica da série, mas a riqueza das personagens e suas interações.

Agora começo a me despedir dos EUA também. Eu sou muito sentimental e muito apegado a tudo. Pra mim qualquer coisa que envolva perda ou mudança é muito difícil e um dos motivos que me fez decidir por vir foi a necessidade de quebrar meus laços com Campinas e enfrentar meus medos. Não foi fácil, mas eu sentia que precisava fazê-lo, precisava me libertar da minha "necessidade de segurança", se é que isso faz algum sentido. Eu acho que apesar de todas as dificuldades que enfrentei, do custo financeiro e emocional, valeu a pena. Me sinto agora muito mais forte, maduro e pronto pro que quer que seja. Sempre me lembro do que minha amiga Camila diz, "o que não mata, fortalece".

Mas, claro, fico triste também. Cada lugar que eu vou ou cada pessoa que eu encontro eu penso, "caramba, essa pode ser a última vez que estou vendo isso/essa pessoa". Sim, pode ser. Mas ao mesmo tempo eu sinto que depois de ter vivido aqui, isso agora faz parte de mim e eu vou acabar voltando de um jeito ou de outro, mais cedo do que tarde.

Eu me sinto agora que nem o camarada casado que tem uma amante e não sabe com qual das duas vai ficar :) Eu já vislumbro no Brasil muitos aborrecimentos: telemarketing, trânsito, "jeitinho brasileiro", falta de educação, falta de civilidade, político corrupto, violência, etc. Mas também vejo tanta coisa boa: Daniela, Isadora, mãe, pai, irmão, irmãs, sobrinhos/a, amigos, português, piada, City bar, música brasileira, churrasco, picanha, sol, praia, chopp, espontaneidade, improviso, camaradagem, amor pela vida, etc...

Dos EUA vou sentir falta também de muita coisa: jazz de verdade (e aos montes!), jam session, profissionalismo, respeito às leis e ao cidadão, segurança, amigos (sim, fiz alguns!), lago Michigan, Michigan Avenue, big band, liquidação (DE VERDADE!!!), craiglist, pontualidade, organização, trânsito civilizado, coisa barata, carro cheio de botão (e barato!), neve, (só no primeiro mês) falar com a telefonista em trinta segundos, Guitar Center, Ebay, poder devolver qualquer coisa sem precisar dar nenhuma explicação, internet a jato, telefonia celular sem roaming e quase de graça, compra pela internet, sorvete de butter pecan, DVD lançamento na maquininha de 1 dólar, 158 tipos de cerveja, água quente na torneira, mexicano (kkk), loja e restaurante de mexicano, restaurantes e gente de todos os lugares, etc...

Mas não vou sentir falta de: 6 meses de inverno, comida ruim, fast food, carne ruim e cara, Natal só no dia 25 (e na neve), neve (depois de um mês), ano novo na neve, carnaval na neve, só 2 feriados por ano, multa de trânsito, polícia te seguindo depois de sair do bar, café ruim e no copo de papel, talher e prato de descartável em restaurante, TUDO descartável ou congelado, fake politeness, apertar mão de mulher (ao invés de 1-3 beijnhos), ambiente fechado o tempo todo, não poder beber em lugar nenhum, barbecue sem cerveja e picanha, racismo de preto com branco ESCANCARADO, racismo de branco com preto DISFARÇADO, total separação racial, mostrar ID pra entrar em bar, falar inglês, não entender piada, falar tudo duas vezes, ouvir (quase) tudo duas vezes, fingir que entendeu alguma coisa, perceber que o outro fingiu que entendeu, fahrenheit, milhas, pounds, inches e todas essas medidas idiotas que só se usam aqui, americano que acha que o EUA é o único (e o melhor) lugar do mundo (uns 95%), americano que acha que brasileiro fala espanhol (98%), americano que acha que o Brasil é cheio de "animais" (99%), americano (kkkk), moralismo hipócrita, político que diz que o livro preferido é a bíblia (90%), etc...

Mas por mais irônico que possa parecer eu já fui roubado aqui duas vezes! Sim!!! Sexta passada dormi em Chicago e estacionei meu carro na rua e abriram o carro e roubaram meu GPS (já comprei outro por $50!). Tudo bem que uma das portas do meu carro não tranca :) Bom, no Brasil eu não ia deixar um GPS num carro, ainda que ele trancasse! Também não ia deixar de consertar isso, certo?? O outro roubo foi na NIU. Tem uma sala cheia de armários onde muita gente deixa os amplificadores, destrancados em cima dos armários. Well, um fim de semana alguém entrou e levou três amplificadores, incluindo o meu. Nem esquentei tanto, paguei só $100. Fiquei mais puto quando vi que no Brasil tem gente vendendo por R$1000,00... É gozado, porque a gente "acha" que aqui isso não vai acontecer, a gente descuida e como se viu, dá no que dá. Roubo de bicicleta em Dekalb não é raro e em Chicago já ouvi várias histórias de roubos de também, inclusive de carro arrombado, bem ao estilo brasileiro!

Bom, tem muita coisa que quero escrever antes de voltar pro Brasil. Vamos ver se consigo fazer isso a tempo.

sábado, 20 de março de 2010

Gigs em Chicago

Esse ano tem sido muito bom pra mim. Por que o guitarrista do grupo Bossa Três, Ed Gerber foi de férias por dois meses no Brasil, acabei tocando com o grupo por todo esse período, numa média de três vezes por semana. O Bossa Três é um grupo que já atua na região de Chicago há bastante tempo. Isso faz com que eles tenham gigs fixas e/ou regulares e um bom número de fiéis seguidores, brasileiros, hispânicos e americanos. Chicago tem relativamente poucos brasileiros, então quando se frequenta o "circuito brasileiro" vê-se sempre as mesmas caras, quase que nem numa cidade pequena. Os agregados não brasileiros tem um entusiasmo enorme pela cultura brasileira e tentam cantar as letras imitando as palavras e dançam com a maior empolgação mas sem o menor! É um barato de se ver.

Acabei tocando com eles o Reveillon e também o carnaval. Carnaval na neve é um troço que não orna direito.O carnaval aqui nos EUA só rola mesmo em New Orleans, o que eles chamam de Mardi Grass, que vem da tradição francesa. Aqui é um dia como qualquer outro e as poucas festas que rolam são só no sábado. Em Chicago só rolaram duas festas de carnaval, a que toquei a de um outro grupo conhecido aqui, chamado Chicago Samba. O lugar que tocamos não tem qualquer relação com o Brasil e vi gente no bar pedindo caipirinha sem os bartenders terem a menor idéia do que se tratava. Trataram a gente bem aquém do que estava acostumado nos carnavais do Brasil. Não deram comida ou bebida. Como se não bastasse, não nos deixaram entrar com bebida também. Eu estava num daqueles dias em que queria tomar todas, ainda mais que não ia ter que dirigir pra Dekalb, daí comprei uma garrafinha de whisky, mas o segurança frustrou meus planos. Em termos, porque daí deixei a garrafa na caixa de correio e depois no intervalo eu e meu amigo Jack Zara, o baixista da banda, voltamos a matamos a bixinha!!

Em comparação com o Brasil, eu diria que as gigs aqui são bem tranquilas. Primeiro não tem aquela puta zona que nem no Brasil, todo mundo chapado enchendo o saco (pelo menos nas gigs qeu EU fiz). Raramente toquei mais de 3 horas (no Brasil em geral são 4, mas às vezes mais). Muitas vezes toquei menos. Normalmente somos muito bem tratados. Os cachês não são ruins e ainda tem as tips (gorjeta), que algumas vezes quase dobraram meu cachê. Nas gigs solo que fiz ainda sempre vendo cd's. Eu sinto que mesmo tocando em bar ou restaurante, você é quaaase tratado que nem artista, tanto pelo "patrão" quanto pela audiência. Claro que não é sempre assim, mas na média eu diria que sim. A única coisa que me cansa nas gigs aqui é dirigir de volta pra DeKalb... Puta cimento!

Outra diferença é que os grupos são maiores, trio, quarteto, quinteto. Fiz poucas gigs solo. No Brasil o "tar" do violão e voz virou a regra na maioria dos lugares. O cara paga 100 cruzeiro, bota um mané tocando por 4, 5 horas e diz que tem "música ao vivo" e ainda enche o saco do cara pra ele "agitar"! Eu sei porque eu já passei muito por isso. Tá tudo errado. Bixo, eu não entendo porque os caras não encaram a músico como um "algo mais". Bota um grupo pra tocar dois sets de uma hora, sei lá, ou algo assim e tá ótimo. A música apresentada vai ser de uma qualidade melhor já que com um repertório menor dá pra ensaiar, fazer arranjo, etc. Os músicos vão tocar com muito mais energia e o público vai valorizar mais, porque vai ser aquilo ali e acabou. No Brasil o pensamento é "tem que tocar a noite toda senão o nego não vai querer pagar couvert". Eu já tive gerente me enchendo o saco pra voltar depois de 15 minutos de intervalo dizendo que tinha cliente reclamando que não ia pagar couvert. Me poupe!

A verdade é que músico quer ser artista. Uma coisa é ir lá tocar das 6 as 10h. Outra é ir lá fazer o "seu show" por 1 hora ou pouco mais e realmente preparar a tua apresentação. No fundo músico quer ser artista. Ninguém quer fazer nada só pelo $$$, senão a gente seria qualquer outra coisa, advogado, médico, sei lá, qualquer coisa, mas músico não!!!!!!

Terremoto no milharal

Muitos já receberam um email narrando minha primeira experiência com terremoto - se é que dá pra chamar isso de terremoto, depois do que aconteceu no Haiti e no Chile. Aqui não é uma região propícia a terremotos já que não repousa sobre nenhuma falha conhecida. Mas, vez ou outra a terra chacoalha, ainda que sem grandes estragos. Enfim, segue aí a narrativa que escrevi no dia seguinte.


__________________________________________________________


Nunca tinha ouvido falar de terremoto por essas bandas, mas ontem quando senti a casa chacoalhando por volta das 4 da manhã foi a primeira coisa que me passou pela cabeça. Na verdade, não, primeiro imaginei que alguém estivesse subindo no sotão, mas nem nas festas mais barulhentas que meus roommates já deram eu senti a cama balançando! Daí pensei, "bom, ou é terremoto ou é furacão".

Coincidentemente eu estava acordado. Tinha acabado de chegar de uma gig em Chicago, depois de dirigir por quase duas horas na pior nevasca do ano. O tremor foi coisa de 10 minutos depois que fui me deitar. Foi um tremor leve, de 3.8 que até onde sei não causou nenhum estrago. Eu comecei ouvindo um barulho como que atravessando a casa toda, depois senti minha cama tremendo e quando me leventei pra ver o que era vi que o abajour também estava chacoalhando. Foi bom ter a certeza de ver o abajour, porque eu não sendo, digamos assim, mais tão jovem, já tive diversas experiências onde meus sentidos me traíram, então sempre penso que é o caso e busco uma prova irrefutável! Bom, a prova irrefutável tive mesmo quando acordei no Daily Chronicle e no Chicago Tribune

Muita adrenalina pra um dia só!


domingo, 20 de dezembro de 2009

Férias enfim!!!

Uma semana depois de todo mundo, os músicos da Jazz Ensemble finalmente tiveram suas férias! A "culpa" foi da turnê tardia que fizemos essa semana. A JE foi selecionada pra tocar na Midwest Clinic, um dos maiores congressos em educação musical relacionada a bandas e grupos musicais de universidades e escolas. Nesse meio o professor Carter é semideus, então pra ele foi realmente um "big deal".

Pra mim essa turnê teve altos e baixos. Na terça, quando fomos fazer uma clínica e tocar numa big band, eu estava bem doente. Eu havia tomado a vacina contra a gripe suína no dia anterior e tive uma reação colateral muito forte. Fiquei enjoadíssimo o dia todo, com dor de barriga, febre e dor no corpo. No fim, me perguntei se a gripe suína seria pior do que o estava passando. Duvido. Quando chegamos de volta ainda tive que andar uns quarteirões até minha casa e realmente não recomendo caminhar por aí com febre a uma temperatura de -15C.

Quarta também foi dia de "baixos". Achei o congresso todo uma chatice e não entendi bem por que estava ali, já que só tocaríamos na quinta. A parte boa foi que ficamos hospedados num ótimo hotel em Chicago, o Hyatt, bem no centro da cidade. Foi um plus muito bem vindo ganhar essa hospedagem, coisa que não seria provável, já que Dekalb não fica muito longe. A idéia por trás foi justamente nos disponibilizar um acesso full time ao evento. Na quarta nós tocamos no Jazz Showcase, que é uma das casas de jazz mais importantes em Chicago. De novo um "baixo". Ron Carter interpretou mal algo que eu disse e o clima ficou bem pesado. Quando se toca na ferida dele, ou melhor quando ele sente a sua autoridade desafiada, sai de baixo... Como eu disse, fui mal interpretado, mas com ele é melhor ficar quieto pra não piorar as coisas. Isso fez com eu tocasse a segunda parte sem o menor entusiasmo.

O "alto" foi a Big Band da "Warren Township High School" que abriu pra gente. A big band, que também foi selecionada pra tocar no congresso, quebrou tudo. Dinâmica, swing, linguagem, tudo perfeito. Dois dos saxofonistas são muito bons e um deles botou o Jazz Showcase abaixo. O moleque é impressionante e todo mundo saiu falando que ele toca melhor que os saxofonistas da JE. Chegamos no hotel quase meia-noite e ainda saímos andando pelas ruas da cidade pra achar algo pra comer. Achamos um lugar ainda aberto na Wabash Ave. que nos serviu comida ótima e relativamente barata pra Chicago (em torno de U$10.oo). Não, não é perigoso andar pelas ruas do centro de Chicago de madrugada.

Quinta foi nosso grande dia no congresso. Fomos lá de manhã pra assistir a um outro show e eu tive que voltar pra comprar uma camisa branca, já que não fui avisado que esse seria o uniforme pro show. Fiquei meio puto, mas no fim foi ótimo porque acabei passeando mais uma vez pelo centro de Chicago e descobri um restaurante maravilhoso chamado Italian Village. Eu vi o nome de longe e algo me disse que tinha que almoçar lá. Chegando lá um cartaz dizia "o primeiro restaurante italiano de Chicago". O lugar, uma espécie de cantina, tem de fato um glamour incrível e passa a sensação de tradição mesmo. Tinha fila de espera mas consegui um lugar espremido no balcão. O garçom, um velhinho muito simpático, que, suponho eu, trabalha lá já há muitos anos, chamava vários clientes pelo nome. Pedi uma lasanha e sem resistir ao astral do lugar, acabei tomando uma taça de vinho.

Mas o dever me chamava e corri pra pegar o fretado de volta para o McCormick Center. Tudo lá foi extremamente organizado e o som estava perfeito. O salão que devia ter lugar pra umas 1.000 pessoas ou mais, estava lotado e tivemos a honra de ter como ouvinte, bem na primeira fila, Ellis Marsalis, grande músico e educador, além de portador de um DNA privilegiado, que gerou quatro extraordinários músicos, entre eles Branford e Winton Marsalis. Fizemos talvez o nosso melhor show. A banda fez juz a fama "swingar forte", mesmo sem ter uma grande seção de saxofones. O clima ruim do dia anterior se dissipou por completo e no fim fomos embora com a sensação de que todo o nosso esforço não tinha sido em vão.

A JE ficaria em Chicago até o dia seguinte mas eu precisei voltar mais cedo por causa das minhas aulas em Oaklawn. Não foi sem tristeza que vim embora. O tempo em Chicago estava até bom e não vi neve em lugar nenhum. Em Dekalb - já vazia por causa das férias - a neve acumula e o cenário que encontraria aqui não me animava a voltar.

_______________________________________________

Escrevo meu último post do ano em quarto novo. Allison se mudou e eu vim pro quarto dela, que é um pouco maior e tem vista pra rua. De lambuja ainda fiquei com alguns móveis dela e agora tenho um quarto bem mais aconchegante. Jamie, Erik, Ramon e Tera também se mudaram. Coincidentemente o único que ficou da panela foi o Lewis, que ao menos sorri pra mim. Confesso que estou aliviado. De uma maneira geral, esse inverno não chegou pra mim sombrio como o ano passado. Agora minha vida aqui é bem diferente. Tenho carro, estou trabalhando, tocando e dando aula e aos poucos começo a ter meus amigos também.

Agora vou fechar pra balanço. Daqui algumas horas minha noiva Daniela está chegando por aqui. As saudades são muitas pra matar. Tem muitas coisas e lugares que quero mostrar pra ela.

Agradeço a todos que vem acompanhado minhas histórias. É bom ter os amigos por perto, ainda que de maneira virtual. Desejo a todos um ótimo Natal e um excelente 2010!



Com o grande Ellis Marsalis depois do show

sábado, 12 de dezembro de 2009

Multas ao sabor da Brahma!!!




To aqui em Dekalb, acredite se quiser, saboreando uma Brahma. Já tomei umas par delas enquanto conversava com meu velho amigo de infância, Rafaelo Galvão, que também mora nos EUA. Não nos vemos há muitos anos e ficamos muito tempo sem nos falar, mas como costuma ser com verdadeiros amigos, parece que foi semana passada que nos vimos.

Quanto à Brahma, estou um dia numa liquor store a procura de uma cerveja diferente - e uma coisa legal aqui é que a variedade de cervejas é enorme e algumas lojas mesmo tem as cervejas agrupadas por países - bom, mas de repente me deparo com um 6-pack da Brahma! Foi uma surpresa porque nunca tinha visto cerveja brasileira aqui. Acabei não comprando no dia, mas hoje me deu saudades do Brasil e vontade de beber e mesmo achando que as 6 long necks da Brahma não valem U$7.99, acabei comprando assim mesmo.

O que me motivou a escrever foi a multa que quase tomei. Pela vigésima sétima vez fui parado pela polícia (pull over, como se diz aqui), que como já disse uma vez, não tem muito o que fazer por aqui, então acaba enchendo o saco da gente. Eles chegam muito educados pra gente "boa noite senhor, você sabe porque estou te parando?". Não sabia, quer dizer, achei que era por causa do celular, o que é permitido em algumas cidades mas em outras não (tinha ido tocar num subúrbio de Chicago), mas foi porque "o senhor estava a 66 milhas/hora, é o limite e 55". Cara, juro por Deus, tinha um monte de neguinho dirigindo mais rápido que eu. Bom, ai joguei aquela conversinha, "olha senhor, eu sou músico, estava trabalhando, não conheço bem essa região, achei que o limite fosse 65, etc. Ai ele disse: você é músico? estuda na NIU? sim. Toca na Jazz Ensemble com Ron Carter? Sim! Dai ele disse: "Eu também fui pra NIU, e tocava bateria na Jazz Ensemble". O quê????!!! Bom, o final da história você já sabe, conversa vai, conversa vem, e por algum milagre do destino me livrei de mais uma multa. Olha, outra dessas só daqui a 100 anos.

Aqui nos EUA tem uma coisa interessante para os bebuns que é a seguinte, você só pode ser parado pela polícia se tiver cometido alguma infração. Eles não podem escolher aleatoriamente como fazem no Brasil. Claro que qualquer coisa é motivo. O sinal dePARE aqui é pare mesmo, 100%, não vale aquela migueladinha que a gente dá no Brasil. Eu já fui seguido por polícia várias vezes, geralmente saindo de bar (mas nem sempre) eles te seguem esperando você dar um vacilo pra que eles possam te parar e fazer o bafômetro. Todos os policiais aqui tem um computador de bordo no carro, onde eles podem acessar as informações dos carros e bafômetro, pra pegar estudante bêbado. Não que nem em Campinas, tipo 2 bafômetros pra cidade inteira!

Eu estou falando de multa porque disso eu entendo tá!!!! Minha primeira multa aqui foi, claro, em Dekalb, por excesso de velocidade, ($75.00). 40 milhas (64km) onde o limite era 30 (58km). Em carro com câmbio automático, numa pista que o trânsito está andando, 30 não é nada e 40 chega fácil, fácil. O guarda foi tão educado que quase falei "obrigado moço!".

A segunda foi em Chicago "furando o sinal vermelho" (U$100.00). Aqui você pode furar o sinal vermelho pra converter à direita, EXCETO quando tem uma placa dizendo que ali não pode! Puta sacanagem, 1:30h da manhã, vindo embora de Chicago, quem é que vê placa gente??? Mas o pior estava por vir. Estou eu vindo cansando do Wisconsin, onde dou aula, tendo que dirigir quase 1:30h pra chegar em casa, brasileiro como sou, nunca dei muita atenção para os aviso de WORK ZONE, FINES DOUBLE IN WORK ZONE, $375 MINIMUM. Pois, me f*$#&¨@*(&#. Na work zone, que é o trecho em obras, o limite é 45 milhas por hora (72km), quando o normal é 65 (105). Não teve choro nem vela. O camarada, checou meu histórico em alguns minutos, apreendeu minha carta e me mandou pro juiz. Sim, o idiota aqui foi pra corte.

A corte foi marcada, ironia do destino, para o mesmo dia da minha viagem ao Brasil, em junho. Consegui antecipá-la para dois dias antes. Fala sério, euzinho da silva aqui indo pro tribunal???? O paisinho lazarento! Bom, lá você imagina né, um monte de mexicano e um povo super esquisito. Tem até intérprete pra espanhol! Antes de me dirigir ao juíz o promotor me chamou e disse: "olha, nós vamos te oferecer 'court supervision' + $675 de multa". Quanto????? 675?? Tá louco??? O mínimo não é $375??? "É meu jovem, mas o máximo é 1000!!"

Seguindo o conselho do advogado da NIU, pedi o adiamento pra quando eu voltasse do Brasil. Mas não teve escapatória. Chegando aqui de volta, apelei para a sensibilidade feminina de uma juíza que estava lá e de lambuja levei $100 de desconto, tendo ainda que pagar $575. Mas tudo bem, porque eles parcelam em 10x sem juros. Tá óooootimo. E tudo mês lá vai um chequinho de $50 para o Detran de Rockfork. Oh raiva!!! Jurei pra mim mesmo que nunca mais tomaria multas aqui nesse país maldito. Mas minha promessa foi quebrada em uma semana...

Dia desses fui pra Chicago fazer uma gigizinha de $65.00. Faz as contas: 15 de gás e pedágio + 10 de cerveja + 10 de rang0 + 100 de multa = -70. Pô, ser músico dá prejuízo! Essa multa é engraçada, vocês podem vê-la no vídeo da prefeitura de Chicago. Bom, eu nem sei se posso divulgar isso mas aí vai, entre no site:

http://egov.cityofchicago.org/revenue/

Clique no quadrado vermelho à direita que diz "View your red-light violation video".

Depois que entrar lá preencha:

Citation number: 7002187011
License plate number: A550183

O tonto aqui é o terceiro carro que passa, logo atrás de uma camionete. Dá até pra ver o flash da foto.

Aprendi que nesse país a lei é pra valer. Por mais que tenha ficado puto com as multas que tomei e acho de certa forma há um certo exagero e mesmo um "indústria de multas" também, por outro também noto como são menos frequentes aqui os acidentes de trânsito. Nas minhas idas ao Wisconsin, nunca vi um acidente grave sequer. Parece que a lei acaba surtindo efeito. Percebo claramente isso nos meus amigos aqui que realmente evitam a todo custo dirigir e beber. Aqui DUI (driving under influence) é coisa muito sério mesmo, e ninguém quer isso no currículo.

Peace!




A garrafa é mais engraçadinha

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Liberace na mansão do governador




A Liberace é o principal combo da NIU. Os integrantes são em geral os melhores músicos da universidade e recebem uma assistantship da fundação Liberace, que até hoje não descobri o que é. Eu estava na expectativa se faria parte do grupo ou não porque professor Carter já havia me dito que a fundação havia cortado boa parte dos fundos devido a essa crise na economia, e que ainda não tinham a verba para me colocar no grupo. Mas na primeira semana de aula, ele cruzou comigo no corredor da universidade e disse que havia conseguiu a verba pra eu fazer parte do grupo.

O único remanescente da formação anterior é o trombonista Shawn Bell, uma espécie de braço direito de Carter. Ele é o tipo de cara que tem tudo pra ser chato, todo certinho, daqueles que nunca atrasam, tira 10 em todas as matérias e SEMPRE faz o que lhe é atribuído da melhor maneira possível e dentro do prazo. Mas Shawn não tem nada de chato, é super gente fina e ainda toca muito, além de ser um grande arranjador.

Dois músicos vieram da Michigan State University, que tem um programa de jazz conceituadíssimo, o baixista Nathan Brown e o trompetista e pianista Ross Margitza. Nate tem um som de baixo gigantesco que faz jus ao seu professor na MSU, o renomado Rodney Whitaker. Ele é o tipo de figura que só aqui nos EUA mesmo: sem malícia nenhuma, leva ao tudo ao pé da letra, leva meia hora pra falar qualquer coisa e fala tudo nos mínimos detalhes. Um adolescentezão. É como eu achei que seria o Shawn!! Eu cheguei mesmo a duvidar do seu QI, mas nas horas em que fomos conversando na nossa viagem pra Springfield, Nate se revelou bastante inteligente e informado.

Ross é um daqueles caras que a gente fica pensando, "só pode ser um gênio". Ele tem 21 um anos mas parece bem mais velho, fisicamente falando e também devido à sua maturidade, musical e pessoal. Quando ele chegou aqui e pegou no trumpete na primeira canja tudo mundo ficou de boca aberta com a sua musicalidade e seus solos belíssimos, cheios de melodia, blues e swing. Como se não bastasse, na segunda música ele sentou no piano e repetiu o feito. Difícil acreditar.

O grupo fecha com o saxofonista Brian Fritz, o único estudante de graduação do grupo e o baterista que veio da Carolina do Sul, Xavier Breaker. Xavier, que aqui se pronuncia Ex-Zeivier (afff..), é o único afro-americano do grupo e outro que deixa todo mundo de boca aberta. O menino, que é também um doce de pessoa, esbanja musicalidade e pela primeira vez na vida eu consegui ouvir num solo de bateria não só melodia, mas também harmonia! Eu sei que parece absurdo, mas é exatamente o que eu ouço quando ele toca.

A Liberace tem entre as suas atribuições dois ensaios semanais de duas horas supervisionados pelo professor Carter e a administração dos demais combos da universidade, lecionando e organizando tudo. Além disso participamos de muitos eventos aqui na universidade, acompanhando os artistas visitantes e tocando aqui e ali. Boa parte das gigs são pagas, como foi essa última, uma performance na mansão do governador de Illinois em Springfield, 3 horas sul de Dekalb.

Como eles queriam um trio, fomos só eu Nathan e Xavier. Em eventos desse tipo a universidade cede uma van (sem motorista!) e cobre as despesas da viagem. Além de disso recebemos um ótimo cachê (meu melhor até agora!). Não entendi muito bem o que foi o evento, mas foi tipo um cocktail oferecido pela NIU para alguns de seus colaboradores. E não, o governador não estava lá! Que desfeita!! Aliás o governador atual, Pat Quinn assumiu após o impeachment do anterior, Rod Blagojevich, que é a cara do Nista, da banda Som Especial!! Na época do escândalo, mais ou menos há um ano atrás, aparecia a foto do bendito todo dia no jornal, e cada dia que passava eu achava os dois ainda mais parecidos!! O Nista, manda uma foto ai vai!

Springfield, pelo pouco que consegui ver, parece um brinco de cidade. Tudo bonitinho, organizado, limpinho, etc. Não sei como é para os americanos, mas pra mim é um troço tão diferente do que se tem no Brasil que não deixo de ficar meio deslumbrado. Acho que eles sentem o mesmo quando se deparam com a "bagunça" despojada da América Latina!



Aerogeradores para energia eólica no começo da viagem. Nunca tinha visto ao vivo :)


Parece aqueles imagens da bíblia. Fiquei esperando pra ver se via algum anjo!!


Chegando em Springfield


Centro da cidade


A mansão do governador


Cadê o governador? Não vem falar comigo não?


Olha o trio aí


Saindo de Springfield

sábado, 21 de novembro de 2009

Os sonhos não envelhecem


Diz o velho cliché que na América todos os são possíveis. No que diz respeito às coisas materiais, isso é bem próximo da verdade e hoje realizei um sonho antigo e comprei minha primeira Fender Stratocaster americana. Não sei quando foi que começou a minha obsessão por esse instrumento, mas talvez tenha sido quando comecei a mergulhar na música de Stevie Ray Vaughan e a transcrever seus solos. Mas não sei não, talvez tenha sido bem antes.

Ontem fui a uma Guitar Center, que é uma cadeia de lojas de instrumentos muito grande aqui nos EUA. A primeira vez que entrei numa loja dessas eu tive tremedeira. Tem de tudo e aos montes. Tem sala climatizada para os violões e todas as marcas imagináveis. Instrumentos que no Brasil são "incompráveis" de tão caros, ficam ali expostos para serem testados sem nenhum stress. Não faz muito tempo me dei conta que a Guitar Center também trabalha com instrumentos usados e costuma ter ofertas irrecusáveis. Os preços de equipamentos novos nas lojas aqui são meio que tabelados. Sempre pesquiso em sites como Musician's Friends, Zzounds, Music 123, Sweetwater e American Musical Center mas normalmente não há muita diferença de uma pra outra. Já com usados a história é outra, mas normalmente aí só funciona indo pessoalmente. Na Guitar Center o melhor de tudo é que as ofertas aparecem no site. Foi numa dessas que consegui comprar a minha mesa amplificada Peavey pra minhas gigs de violão e voz por U$80. No Brasil não custaria menos de R$1000,00. Ontem fui lá na loja de Rockford, a 45 min de Dekalb, pra comprar um Cry Baby Wah-Wah por U$17 e um Equalizer Boss por U$37. Cheguei lá, vi a Fender dos meus sonhos por U$740. Muito pouco por um sonho.

No Brasil quase comprei uma Fender Highway usada por R$3000,00. É a mais barata das made in USA. Aqui custa, nova, U$700,00. É um instrumento ok, mas seria só um quebra galho de um sonho. Aqui eu posso e quero mais! Pelo menos a American Standard vai! Custava $1000,00 quando cheguei, depois subiu pra U$1200,00. Quem disse que não tem inflação?? Mas a American Deluxe, um modelo acima da AS, já era querer demais. Nova custa uns $1500-1600,00. Comprei com 10% de desconto, por menos de U$700,00, com as taxas U$720,00. Ela é 2007, mas não tem um risco sequer. Nem dá pra acreditar que foi usada. Eu fiquei uma meia hora tocando na guitarra e sai da loja com taquicardia, de verdade. "Essa guitarra tem de ser minha", pensei. Bom, poder eu não podia, né... Tava guardando dinheiro pra poder pagar pequeno empréstimo que precisei fazer com meu pai, mas agora papai vai ter que esperar um pouquinho (desculpa pai!!!!!).

Essas coisas no Brasil são de matar de raiva mesmo. É inacreditável o preço das coisas aí. Ou será que o inacreditável é o preço das coisas aqui?! No Brasil tudo é muito difícil no que diz respeito às coisas materiais. Tudo custa muito caro e tem que ser parcelado em trocentas vezes. Quando alguém aqui vai imaginar que após 20 anos de música não consegui comprar minha Fender?? Aqui neguinho nem vai entender. O que, seu sonho? Uma Fender?? A questão econômica é evidentemente uma das grandes diferenças entre os dois países e faz muito tempo quero fazer um post sobre isso. Era pra ter sido esse, mas acabei falando demais da minha nova guitarra! Quem sabe o próximo.

Então vai lá, só pra fazer neguinho passar raiva: outras aquisições recentes incluem um amp Fender Deluxe 112 por U$150. Comprei só pra "quebrar um galho", antes de comprar o meu valvulado (meu landlord Ray Conley me ofereceu o Fender Twin dele, novinho, por U$600). Placa de som M-Audio Fast Track nova, U$60. Também só um quebra galho antes de comprar uma melhor. Não resisti ao preço. No Mercado Livre, sem nota, custa R$300,00. Um monte de pedais pra guitarra. Novos, Boss Distortion DS-1, U$30 e Super Overdrive SD-1, U$40. No Brasil custam mais de R$200,00. Usados Boss Digital Delay e Chorus, e compressor MXR. O camarada vendeu os 3 por U$120. Melhor nem saber quando teria custado no Brasil. (só o Delay sai usado no ML no mínimo por R$300). Laptot Acer com bag, mouse e multifuncional Canon, tudo por U$400. E por aí vai...

Galera, isso tudo aí não pra ficar contando vantagem não, até porque paguei um preço alto pra estar aqui. É que fico indignado mesmo com a situação do nosso país e fico me perguntado se tem de ser assim. Tem?

____________________________________________

Mas vamos deixar a indignação pra lá porque este é um post sobre sonhos e tem mais um sonho vai se realizar. Vai ser meu presente de Natal e vai chegar dia 21, daqui exatamente um mês. Minha noiva Daniela vai vir me visitar!!!! Eu já estava até conformado em passar por mais um inverno sombrio e solitário aqui, uma vez que sabia que não poderia bancar uma viagem pro Brasil agora, devido ao preço da passagem, que vai às alturas nessa época do ano. Uma conjunção de fatores permitiu que ela viesse pra cá e quando a notícia se confirmou, não consegui segurar as lágrimas. Foi uma emoção muito grande. Sempre quis poder dividir com ela as coisas que gosto aqui, os lugares que vou, os passeios que faço, os restaurantes, os amigos, etc. Agora tudo isso vai ser possível. Obrigado meu amor, te amo.

Ps: haha, acabei de ver que já tinha falado disso no post anterior!! Bom, agora vão ficar os dois!!



Meus brinquedinhos!


Eu e minha nova paixão!



Minha mesinha de U$80