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domingo, 1 de novembro de 2015

Dekalb News 10 - Halloween

Esse texto foi escrito e enviado a um grupo de emails em 9/11/2008. A única coisa que mudei foram os acentos que na época não usava por causa do pc. As fotos também são da época.






Bar decorado



Casas decoradas na rua que morava






Em diversos países, principalmente aqueles de origem anglo-saxônica, comemora-se no dia 31 de outubro o Halloween. Eu sempre achei (e continuo achando) que Halloween não tem nada a ver com o Brasil nem com nossa cultura, que está muito mais pra Saci do que pra Freddy Krueger, mas aqui nos EUA eu gostei de ver a coisa toda rolando. Apesar do esforço das escolas de inglês em levar a festa pro Brasil, me parece que ela nunca vai chegar a ser uma sombra do que é por aqui, já que até onde pude perceber aqui a festa tem uma tradição forte e possui raízes históricas, como eu supunha. Uma pesquisa rápida no Wikipédia me informou que a comemoração do Halloween chegou em solo americano através dos colonos irlandeses, e que por sua vez carregam essa tradição desde os seus ancestrais celtas há muitos séculos.

O Halloween me lembrou um pouco o nosso carnaval, com pessoas fantasiadas, festa em todo canto e libido no ar. As preparações já começaram há mais de um mês, com quase todas as lojas e supermercados vendendo artefatos pra festa, de fantasias, cartões, brinquedos para as crianças a decorações de todo o tipo. Isso inclui teias de aranha de mentira (com aranhas de plástico no meio), abajures em forma de abóbora e de morcegos e os pacotes cheios de doces pra oferecer pra crianças que batem às portas pedindo por "trick or treat" (doces ou travessuras!).

Eu vi – ou fiquei sabendo de – muitas atividades que aconteceram em função do Halloween, a maior parte dirigida às crianças, que fazem uma farra danada. Coisas como disputa de fantasias, prêmio pra melhor abóbora e perseguições com susto no meio do milharal. Essa coisa da abóbora é um barato. Você vai lá compra uma – tem de diversos tamanhos – e trabalha a dita cuja até ela virar a assombração que você quiser. O Alejandro me convidou pra ir com a Sarah participar da brincadeira, mas acabou não dando pra ir. A Sarah é uma americana muito gente boa, extremamente crítica da política e da cultura americanas, graças em parte a ter vivido um ano na Indonésia. Ela conta que só depois que chegou lá conseguiu ter uma clareza maior do que acontece fora do país e pensou assim "meu Deus, o que nós estamos fazendo com o mundo"; palavras dela.

O lance do milharal é assim: parece que tem tipo um labirinto no meio dele e a criançada fica tentando achar saída, enquanto os marmanjos ficam fantasiados assustando a garotada. Eu fiquei empolgado com o tal do trick-or-treat, por aqui em Dekalb a criançada pode andar nas ruas sem medo. O pessoal aqui em casa até comprou vários pacotes com doces pra dar pras crianças, mas eu não estava por aqui quando elas passaram. Eu vi um grupinho delas fantasiadas andando na rua, mas fiquei com medo de tirar fotos e ser preso por pedofilia. Quanto às fantasias, ai já é generalizado, todo mundo participa. Mesmo estando numa semana com uma "homesick" danada eu acabei cedendo e comprei uma máscara pra não dizer que não me fantasiei.

Como já disse, estava rolando festa em todo lugar, inclusive na república dos músicos onde estive na minha primeira semana, na minha primeira jam session. Lá rolou o Halloween do jazz (em português é jass!!!), onde a maior parte da galera não entrou no espírito da fantasia e tava mais afim de fazer um som mesmo. Tinha bastante "afro-americanos" na festa, mas já comecei a perceber que uma boa parte deles não dá muito papo pra branco não.  Então eu e Alejandro resolvemos ir pro Starbusters, o bar onde se concentrou a maior parte da galera. No caminho vi muita gente fantasiada andando pelas ruas, grupos grandes. Me lembrou aquele filme "A Volta dos mortos-vivos", quando sai aquela defuntada toda do cemitério e rola tipo uma dança, meio humor negro (será que é isso? Faz muito tempo que vi o filme...). O Starbusters estava lotado e não deixaram a gente entrar. Demos uma passada no Fattie's mas a festa lá estava meio fraca. Tirei umas fotos mesmo assim e voltamos pra ver a galera saindo do outro bar e curtir as fantasias. Aliás tirei algumas fotos da rua, do povo passando. Um barato!

Por alguma razão que Freud deve explicar, no Halloween, mais da metade das mulheres se fantasiam de puta, e parece que uma boa parte age como tal nos clubs e nas festas, levantando a blusa, etc, mas confesso que não vi nada assim. Aliás a questão da sexualidade é uma coisa engraçada nesse país. Eu reparei que as pessoas, começando pelos meus roommates, nunca falam de sexo ou de relacionamentos em geral, o que achei bem estranho, dado a idade média de 20 anos. Aqui, raramente se faz um comentário sobre uma mulher e as pessoas são realmente muito reservadas com tudo que diz respeito a sua vida privada (mulheres brasileiras, sinto decepcioná-las, mas olha, ai no Brasa, homem só fala disso!!). Também a gente não vê casal se beijando ou se abraçando. Você nunca sabe se um casal é amigo ou namorado. Aqui a coisa do assédio e da pedofilia é uma paranóia; pais acompanhando aulas individuais dos filhos e reuniões sempre a portas abertas. Mais de uma vez eu ouvi a expressão "zona de segurança", que é como se fosse uma redoma em volta das pessoas, a qual você não deve ultrapassar. Catina sempre conta sobre do dia em que ela estava na piscina com a sobrinha dela de 4 anos quando veio um policial mandando a menina pôr a parte de cima do biquíni (ela estava sem) ou senão teria que sair da piscina.

Mas tem uma história engraçada. No meu primeiro dia aqui fui à casa do Pete e estava lá quando entrou uma amiga dele na casa. Eu, ainda com os costumes brasileiros arraigados levantei e fui em direção a ela com o intuito de cumprimentá-la mas ela saiu pra trás, quase correndo, com os braços esticados falando, "ei, o que que você quer, para, para!!". Foi a primeira vez que eu ouvi a expressão "zona de segurança". Mas curiosamente, no Halloween todas as mulheres querem virar puta – e os homens querem estar por perto.



Jam session da pesada! Alguns dos melhores músicos que conheci estão na foto, incluindo Patrick Terbrach (branco à esquerda) e Willerm Dellisfort (no piano).



Eu e Alejandro


Pessoas nas ruas I


Pessoas nas ruas II


Pessoas no Fattie's



Fantasia original!



Não é o que você está pensando!! Apenas pedi pra tirar uma foto com essas simpáticas moças que estavam na rua.

domingo, 4 de julho de 2010

Adeus Chicago!



Essa é última vez que escrevo uma Dekalb News, pelo menos com esse nome. Estou no vôo de Chicago para Charlotte, onde pego minha conexão para o Brasil. Vou com o coração partido por deixar um pais que tanto me deu, amigos, uma vida tranqüila, mas ao mesmo vou para o Brasil ficar perto da minha família, de outros amigos e começar minha própria família.

O dia ontem foi longo. Comecei a fazer as malas as 11 da manhã e terminei as 4:30 da matina. Ao longo do dia tive que ir ao Wall-Mart duas vezes malas adicionais, fui na Ax-in-hand comprar minha Fender Telecaster e ainda achei um tempinho pra comprar os últimos presentes pra família. Quando comecei a arrumação estava desanimador; tinha tanta coisa espalhada que nem sabia por onde começar. Fiquei horas só pra decidir o que ia jogar fora ou não, separando papéis, documentos, notas fiscais, etc. O saldo final: 4 malas grandes lotadas até o osso + 5 guitarras e violões + uma mochila.

Pela US Airways, eu posso trazer até 9 volumes adicionais, além dos dois permitidos, e o peso máximo é 32kg. O Brasil é o único pais do mundo que permite isso tudo. No resto do mundo o limite é 23kg. Não tenho a menor idéia da razão pra isso, mas não vou reclamar. Vai ver foi erro de tipografia!

Chegando no aeroporto fui pesar as malas pra ter certeza que estavam dentro do peso, porque senão teria que pagar 2x pra cada uma. Resultado, TODAS acima do peso. Não muito, mas eles são rigorosos com isso. A saída foi usar uma mochila grande que tinha dado pro Patrick e tirar um pouco de cada mala pra aliviar o peso. Bom, eu devo entrar pro Guiness com 5 malas, 4 guitarras despachadas e U$600 em taxas adicionais...

Meus últimos meses nos EUA foram extraordinários. Trabalhei a beça, conheci e convivi com pessoas incríveis. Eu não tenho palavras pra agradecer o quanto as pessoas me ajudaram por aqui e como demonstram estar sentindo a minha saída e tudo mais. Brasileiros como Luciano, Nani, Marcao e Diego. Americanos como Patrick, Pastor Dan, Aaron Fuller, Jack Zara, Nathan Brown."Hispânicos" como Alejandro e Rodrigo, além de tantas outras pessoas. Eu enfrentei muita indiferença aqui no começo, mas no meu último semestre devo dizer que foi bem o oposto.

Eu sou muito grato a tudo o que esse país me proporcionou. Aprendizado, tanto na música como na vida. A oportunidade de conhecer a vida no primeiro mundo, me fazendo valorizar muitas coisas em meu país, mas também abominar outras. Eu me sinto muito diferente hoje. A gente muda, não tem jeito. Eu estou voltando pro Brasil mais forte, mais maduro, mais focado, com certeza do que quero e do que não quero.


Jack Zara


Felipe Fraga, Dill Costa e Marcos Oliveira: Bossa Três


Diego Menezes


Alejandro Fernandez e Rodrigo Villanueva


Rick e Pastor Dan: parece a Seita dos Carecas!


Almoço de despedida com Joel Jupp e família e outros músicos da Igreja Batista de Sycamore


Amirah e Patrick Terbrack. Downtown ao fundo


Nani e Chong no dia da minha formatura


Liberace durante a gravação do CD (Ross, Brian, Sean, Nathan, Júlio e Xavier)


Harvey Lockheart

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dekalb News, últimas semanas.

Quem está acompanhando o blog já sabe que minhas aulas acabaram há um mês. Eu fiquei por conta da Oaklawn Academy, que teve sua graduação nesse fim de semana. Eu fiquei muito emocionado, tenho que admitir. Eu selecionei alguns alunos pra tocarem na cerimônia de formatura e passei as duas últimas semanas preparando-os, ensaiando, etc. Eles se engajaram de verdade no projeto e a formatura em si levou muita gente as lágrimas. A energia que eu senti tocando com eles lá no palco foi incrível. Eles me surpreenderam também, porque eles fizeram bonito, mesmo sob pressão e sem nenhuma experiência.

Eu tive mais de 20 alunos em Oaklawn e não tive o menor problema com nenhum deles. Eu me afeiçoei muito por aqueles garotos e foi muito gratificante ver que todos fizeram questão de me apresentar aos pais que vieram de longe pra buscar os filhos de volta pra casa. Ano que vem, digo, semestre que vem, vai ser uma outra história, porque novos estudantes vão chegar, e todos os que estavam aqui já terão ido embora.

Também nesse período começaram enfim a pintar umas gigs em Chicago. A maioria delas foi por conta do Marcão, um percussionista carioca que está a 15 anos em Chicago e ftoca no grupo Bossa Três, muito popular por aqui. Tocamos algumas vezes num restaurante francês em South Barrington, um subúrbio de Chicago e também no Sinhá, um restaurante caseiro em Chicago que promove almoços temáticos com comida brasileira. A semana em que tocamos quatro vezes me fez lembrar meus bons tempos no Brasil. Tava quase esquecendo que era músico...

Depois de uns dias sozinho aqui na casa, dois novos roommates aportaram. Primeiro foi a Michelle e logo depois chegou o Joe. O Joe vi poucas vezes. A Michelle é muito simpática e tem astral ótimo. Um dia calhou de estarmos os três por aqui e ficamos um bom tempo tomando vinho e jogando conversa fora. Sei que tem mais uma rommate pra chegar, mas pelo jeito não vou conhece-la. Quando voltar pra cá no meio de agosto eles provavelmente já não vão estar mais aqui, já que o contrato deles é só pelo Summer. É muito comum aqui o pessoal estudar no Summer, num um intensivão que dura quased dois meses. Quase todos aproveitam também pra trabalhar. Já no Fall, a casa vai receber novos moradores, e aí, bom... Dekalb News 2009!


O diretor Javier Valenzuela com os alunos


Eu e a galera toda!


Minha "chefa", Melinda McLaughlin


Tive que virar baixista e ainda faço cara feia!


No palco!


Minha nova rommate Michelle


Meu rommate Joe e meu amigo Patrick comendo mosca!



segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dekalb News, o fim da saga!

Estou aqui em Dekalb - onde finalmente o tempo anda muito agradável - curtindo minha última cerveja, uma Leinenkugels, fabricada em Milwaukee. A próxima provavelmente vai ser uma Skol ou com sorte uma Original! Amanhã as 3:40pm to embarcando num voo da Continental rumo ao Galeão. Quase dez meses se passaram desde que cheguei aqui. Alguns poucos acompanharam minhas histórias, e isso me deixa contente. Bom saber que não estou sozinho.

Sinto, no fim da primeira etapa da minha jornada que enfim estou mais em paz com tudo aqui. A adaptação não é fácil. Cultura diferente, clima diferente, comida diferente, etc. Pra mim teve um agravante, o fato de sair de uma situação profissional estável, no momento em que lançava meu primeiro disco, pra uma vida de estudante, tendo que começar do zero num país estranho onde não conhecia praticamente ninguém. Não foi fácil. Também não foi fácil deixar pra trás namorada, enteada, amigos, família. Mas não me arrependo. Sempre sonhei com isso, sair do país, viajar, estudar fora, conhecer uma nova realidade. Não teria sossegado se não tivesse passado por isso. Paguei um alto preço, financeiro e emocional. Mas vim de vontade própria, enfrentando minha própria realidade acomodada e minha personalidade de canceriano que detesta mudanças e perdas. Tinha que fazer isso. Tinha que enfrentar meus medos.

Hoje me sinto mais brasileiro que nunca. Sempre carreguei essa culpa de não ter raízes. Sepre me achei americanizado, com minha paixão por Beatles, jazz e música pop. Caramba, sou branco, classe média, capixaba... Choro, samba, frevo, forró, maracatu. Onde é que eu fico nesse bolo todo? Não nasci no morro, nem em Salvador, nem no Rio de Janeiro, nem em Recife. Mas que raios, eu tenho culpa??? Mas aqui na América, vi que não sou americano não. Eu hein, povo esquisito. Mas aprendi a admirar muitas coisas aqui. Ainda estou naquela fase de análises, pensando, comparando, tentando entender. Onde eu me encaixo, o que eu gosto na cultura americana, o que eu abomino, e o mesmo em relação ao meu país. Por tem coisa no Brasil que não dá pra engolir. Cansei dessa cultura de oba-oba, do jeitinho, da corrupção generalizada e só de pensar em dirigir já me dá arrepio. Mas que saudade da descontração, da espontaneidade, do abraço, da energia, da felicidade autêntica. É complicado por que tudo meio que se mistura.

Mas olha, o meu título foi só pra chamar a atenção. Vou continuar falando minhas bobagens, ainda que mais espaçadamente. Preciso também colocar as Dekalb News antigas. É que dá preguiça... Ainda tem coisas que quero falar com mais, como por exemplo o custo das coisas e o programa de jazz da NIU. Mas agora vai ser o contrário, porque não sei como vou enxergar o
Brasil agora, nem a mim mesmo na minha volta pra casa. Bom, vou dividir esse post em dois prá ficar mais fácil

domingo, 19 de abril de 2009

Crise

Infelizmente as coisas às vezes não são o que parecem. De fato, a eficiência americana é impressionante. Mas não foi pra resolver o problema do meu social security, o que tive de esperar até janeiro para conseguir (era pra sair em outubro). Apesar dessas conquistas iniciais, não aconteceu muita coisa depois. A gig do restaurante italiano (Filo Spinato) durou cerca de dois meses, até que eles resolveram cortar gastos e por fim fecharam de vez no mês passado. Fruto da crise, que agora enxergo com mais clareza. Depois disso, tocamos algumas vezes em outros restaurantes, um em Sycamore e outro em Elgin, ambos do mesmo dono, um italiano bonachão, mas também não teve continuidade. Agora, mais recentemente, com a ajuda de carro, tenho ido com mais frequência a Chicago e acabei conseguindo uma gig com os brasileiros por lá, mas os detalhes conto depois.

A crise se mostra na vida prática, com o comércio, principalmente o do automóveis e imóveis, andando meio devagar. Vejo também notícias constantes de fábricas e também lojas fechando as portas. Em Dekalb vi vários exemplos. Também notei inflação, com vários produtos aumentando os preços. Felizmente a gasolina voltou à casa dos $2,00. O imposto sobre serviços em DeKalb e em grande parte do Illinois também subiu, de 7, 7,5% pra 10%, em média, se não estou enganado. Também vi muitas pessoas contando que tiveram grandes perdas nas bolsas. Como aqui dinheiro em banco não rende absolutamente nada, tudo mundo aplica em ações, que por sua vez é um investimento mais arriscado. Muita gente que tinha dinheiro de aposentadoria aplicado em ações, está tendo que rever seus planos sobre parar de trabalhar. Bom, também estou programando uma news pra falar de dinheiro. Prometo que escrevo antes de voltar ao Brasil.

Quando aos caça-fantasmas, continuo querendo ligar lá pra ver se é verdade. Não, não é possível...

sábado, 24 de janeiro de 2009

Dekalb News 3 - Chicago, the windy city

8 de Setembro de 2008

Na minha primeira sexta-feira aqui nos EUA fui com o Pete em Chicago buscar a Catina no aeroporto. DeKalb fica a 60 milhas (100km) de Chicago e as estradas são ótimas e com pedágios bem mais baratos do que em São Paulo. A diferença é, que ao contrário do eu esperava, não existe no caminho aquele conglomerado urbano como há entre Campinas – São Paulo. Aqui só tem plantação de milho. Aliás aqui se come milho de todo jeito, até frito. E tem o tal do corn dog, que eu vi aqui na Corn Fest, mas não tive coragem de encarar, preocupado com o excesso de calorias.

Depois que pegamos a Catina, já no comecinho da noite, fomos em direção ao centro de Chicago. Estacionamos o carro (U$15,00) e fomos andando em direção a um bar onde estaria tocando o brasileiro Sérgio Pires, já há 17 anos em Chicago. Eu adoro viajar e sempre fico eufórico quando conheço novos lugares. Assim foi em Maceió, Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Manaus, Belo Horizonte, Brasília e até mesmo Londrina, cidade limpa e bonita. Mas nada se comparou ao que senti quando comecei a andar pela Hubbard St. Tive taquicardia!! A rua abarrotada de transeuntes, gente bonita e bem vestida jantando em mesas a beira da calcada, muitos turistas, prédio gigantescos e reluzentes, de tirar o fôlego mesmo. E o melhor de tudo, um clima leve, ninguém com medo, todo mundo feliz com o tempo primoroso no fim de semana, antes do inverno chegar. Eu definitivamente sou uma pessoa urbana. Gosto de gente, museu, prédio, cinema, música, praça, barzinho, etc; mas inseto eu não gosto não! Dos lugares que morei em Campinas, o meu preferido foi o último, ali na 14 de Dezembro esquina com a Sacramento, bem no coração da cidade!

Bom, mas voltando a Chicago. Ainda na Hubbard St, cruzamos pelo Andy’s, um jazz club e fui checar quem iria tocar. Ninguém menos que Melvin Rhine, um organista importante, e que gravou em 1959, um dos primeiros discos do Wes Montgomery, meu guitarrista de jazz favorito. Depois de darmos um pulo no bar onde estava o Sérgio, voltamos pro Andy’s correndo pra não perder o começo do show. A casa tava cheia e dividimos a mesa com uma família italiana. Pagamos U$15,00 de couvert, que aqui é sempre em cash e adiantado. O palco fica bem no centro do bar, que é bem grande pra um bar de jazz. Não sei precisar, mas deviam ter umas 200 pessoas por lá. Apesar do atendimento prosseguir normalmente, a música era a grande atração e o volume do som não permitia mesmo muita conversa. Mas quem precisa de palavras com um som desses rolando. O trio quebrou tudo e o velhinho, com 72 anos, mostrou que ainda está em plena forma. Conseguimos conversar um pouco com ele e até tiramos umas fotos.

Chicago é a terceira maior cidade dos EUA (depois de New York e Los Angeles) e fica à beira do Lago Michigan . É carinhosamente chamada de windy city, mas o vento, que logo vai começar a soprar lá do norte, não tem nada de carinhoso e eu já estou na contagem regressiva esperando por ele. Hoje aqui, que ainda é verão, teve máxima de 17C e a mínima deve girar em torno dos 8C (11C agora). Chicago também foi o destino da primeira migração do jazz, que nos anos 20 saiu de New Orleans e se dirigiu pra cá, antes de seguir definitivamente pra Nova Iorque. Mas a cidade ainda respira jazz e creio que todas as formas de artes. Na semana seguinte ao show do Melvin, aconteceu o 30th Chicago Jazz Festival (bem melhor que o Corn Fest de DeKalb), que entre outras atrações, contou com a presença de Sonny Rollins e Ornette Coleman, seguramente dois dos mais importantes músicos do gênero. Não pude ver o show deles, mas os que vi na sexta e sábado foram o suficiente. Dava gosto ver dezenas de milhares de pessoas reunidas pra ver boa música (e o povo escutava mesmo, ate as atrações mais esquisitas como algumas de jazz contemporâneo!). Famílias inteiras reunidas na grama, gente de todas as idades, velhos, crianças, etc. Foi um espetáculo. Foi bom ver Chicago a luz do dia também, e eu tenho que ser honesto, não sabia se prestava atenção na música ou na cidade.


Canja com Catina no bar que Sérgio Pires estava tocando


Ao lado do grande Melvin Rhine

Cena cotidiana no centro de Chicago

Pose na ponte


Centro de Chicago

Criançada brincando na água

30th Chicago Jazz Festival


À beira do lago Michigan


Entardecer em Chicago

sábado, 17 de janeiro de 2009

Dekalb News 2 - DeKalb City

29 de agosto de 2008

DeKalb é uma cidade bem pequena, com cerca de 40 mil habitantes. Só na universidade estudam cerca de 20.000 pessoas, mas acho que isso não conta no censo. Aqui foi inventado o arame farpado (kkkkk), nasceu a Cindy Crawford e tem a NIU e... só! As ruas são muito largas e as casas são enormes, todas sem muro e com os jardins bem cuidados. Tem esquilos por todo lado e se você não tomar cuidado é capaz de pisar em um deles. É um cenário muito, muito bonito, pelo menos enquanto a neve não chega. É incrível, eu nunca tinha percebido a poluição visual que são os muros...

Violência aqui é coisa rara, e quando alguém vai preso por porte de droga ou é assaltado, sai no jornal local. Aliás tem uma página de ocorrência policial em um dos jornais e as notícias são algo como “Jorge Fernadez preso por dirigir sem licença”; “Pablo Enriquez preso por agredir a mulher”. Claro, sempre os latinos... Sim, aqui tem bastante latino também, a maioria mexicano, embora nada comparado a Miami. A comida mexicana aqui é bem popular e existem vários restaurantes típicos, além de um mercadinho onde tomei picolé de tamarindo e uma padaria (a única?), de longe as melhores groceries do pedaço. Na universidade vê-se também um bom numero de asiáticos, especialmente indianos e muitos negros, digo, afro-americanos. Apesar do preconceito que existe no país, definitivamente os afro-americanos aqui dividem o espaço com os brancos, basta ver o grande número que tem na universidade, nos pubs e nos supermercados.

Apesar de pequena, a cidade tem um trânsito considerável e algumas megastores, como o Wall Mart. Bom, mas aqui todo mundo tem carro e eu já vi vários anúncios de carros por 1000 dólares e até menos. Transporte público praticamente não existe, exceto as linhas fornecidas pela própria universidade, que são extremamente pontuais, diga-se de passagem. Mas se você quiser ir pra outra cidade, mesmo Chicago, não é nada fácil.

A minha casa tem 7 quartos e três andares, além do basement (porão). Ali ficam a máquina de lavar e a secadora, que funcionam a base de moeda. O porão é usado pelos rapazes pra jogar beer pong, um jogo famoso aqui na NIU onde no fim todos acabam fatalmente bêbados. Ainda não joguei o trem, mas acabei bêbado mesmo assim! Ah,uma garrafa de Jack Daniels aqui custa só US$17,00! No terceiro andar fica o attic (sotão), que está funcionando como uma sala de estar. Os caras trouxeram uma TV gigante pra colocar lá e não sei como eles conseguiram, porque os degraus que levam ate lá são minúsculos. Na casa temos internet sem fio ultra rápida (10MB), TV a cabo em todos os quartos e ar condicionado e aquecimento central. É meio velha, como todas as casas por aqui, toda de madeira, e range bastante; mas pra mim foi uma sorte porque a maioria das casas tem carpete, o que não é nada bom o pra quem tem rinite alérgica.

Falando em bebida, se tem uma coisa que americano não faz de jeito nenhum é beber e dirigir. As punições aqui são severas e a polícia, que está em toda parte, e sem nada pra fazer, porque aqui (em DeKalb) não tem bandido mesmo, fiscaliza pra valer. Menor de 21 anos jamais pode estar em um lugar onde tem bebida, nem se ela estiver fechada! Se você estiver no carro, por exemplo, com uma cerveja fechada, e um menor estiver junto, você pode ter problemas com a polícia. Aliás dentro do carro também não pode ter ninguém bebendo. A polícia aqui usa aqueles chapéus grandes e ridículos, que nem no seriado Chips! Eu queria tirar uma foto com eles mas fiquei com medo de ir preso. Sei lá, esse povo é meio doido! Mas acabei conseguindo tirar uma meio escondido. Estou mandando uma com o esquilo também. Ele ta pequeninho mas da pra ver. Foram fotos tiradas com o celular, por isso a qualidade deixa a desejar.

Na Corn Fest (festa do milho kkkkk) que aconteceu aqui semana passada, a parte que vendia bebida era separada do resto da festa, e pra entrar tem que mostrar identidade. Aliás chega a ser gozado eu ter que mostrar identidade provar que tenho mais de 21, mas tenho mesmo, porque a lei é seguida de uma maneira quase cega. Fico até me sentindo jovem.

Augusta Ave. (não confundir com a homônima na capital paulista!)


Entrando na Augusta Ave.


Minha casa




Olha os "Chips" lá atrás. A Camila foi só um "pretexto". Agora sai da frente!


Olha a figura ai!



Olha o camarada fazendo pose!

sábado, 10 de janeiro de 2009

Da cor do pecado

É interessante reler essa primeira impressão da América passados mais de 4 meses. Hoje vejo algumas coisas com olhos um pouco diferentes. Eu sempre tive um problema que foi essa história de sempre dizer o que penso, dizer a verdade, mesmo quando não é apropriado ou requisitado. Eu não sei porque eu sou assim. Pode ser porque não talvez não tenha tido uma educação muita formal no que diz respeito a regras de etiqueta; pode ter sido um resquício da minha fase Mórmon, religião que frequentei na minha pré-adolescência. Essa religião dá muita ênfase ao pecado e suas terríveis consequências, e como se sabe a mentira é um pecado enorme. Bom, hoje não acredito mais em pecado, mas vai que esse medo do inferno ficou no meu subconsciente. Vai ver é uma coisa da minha personalidade mesmo. Mas eu tenho trabalhado nisso e acho que melhorei um pouco. Tenho tentando maneirar o meu impulso de dizer o que penso.

O fato é que, ser assim às vezes me leva crer que todas as pessoas também agem do mesmo jeito, o que obviamente não é verdade. Isso me faz um pouco ingênuo e meio lento pra receber impressões "reais" no meu relacionamento com os outros. O preconceito de preto contra branco existe sim. Não sinto isso sempre, nem acho que aconteça na maior parte das vezes, mas já senti-o, ainda que veladamente. Muitas vezes alguém é bem recebido ou tratado com cordialidade, mas somente por uma questão de educação, de boas maneiras, e como já disse aqui anteriormente, o povo americano é extremante polido e formal.

Quanto a ser fechado, isso é uma coisa muito particular de cada um. Mesmo no Brasil já se nota uma boa diferença do norte pro sul. Aqui também, já vi gente dizendo que o povo do sul é mais aberto. Tal qual o Brasil, a coisa parece acompanhar o clima. No geral, eu diria que os americanos não falam muito de sua vida pessoal, ou demoram um pouco mais pra se abrir. Isso é fato. Não é o caso do Pete, que é realmente um americano diferente. Com meus roommates eu não tive muitas conversas de cunho pessoal e sei muito pouco sobre a vida deles. As pessoas também dificilmente me fazem perguntas pessoais, embora isso algumas vezes isso aconteça.

A história do jazz é muito complicada. Essa coisa da cor permeia o jazz desde suas origens, e pouca gente questiona que o jazz é música de negros. Como o samba no Brasil. Existem jazzistas bons de todas as etnias, mas eu reconheço uma certa superioridade negra. No mínimo pode-se dizer que existe uma diferença. O clichê é dizer que o jazzista negro tem mais swing e o branco, por sua vez, um maior domínio técnico do instrumento. Verdade? Não sei. Aqui na escola, com exceção dos saxofonistas, os melhores músicos de cada instrumento são negros. Claro, pode ser só coincidência, mas eu duvido.

Uma pequena nota. O baixista Kevin Smith, o melhor aqui da NIU, está deixando DeKalb e regressando pra Atlanta, Georgia, sua terra natal. Segundo ele, fruto dos problemas ecônomicos que atingem o país. Uma pena...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Dekalb News 1

26 de agosto de 2008

Minha primeira impressão dos EUA foi de que talvez eu tivesse chegado ao país errado, porque eu só ouvia espanhol. Mas tudo bem, por que afinal eu estava em Miami! A segunda coisa que me chamou atenção foi uma fila de check in onde só havia negros, coisa impensável de se ver no Brasil, pais tão desigual.

De Miami segui pra Chicago, que tem um aeroporto gigantesco, o O'Hare. Paguei U$3,00 pra usar o carrinho para as malas, e mais U$3,00 por uma garrafa de água :( Telefone público nos EUA é algo complicado, e como se vê nos filmes, se usa moeda. Só tem quatro, 0,01; 0,05; 0,10; 0,25; no coins, no calls… Definitivamente eles deveriam aprender como se faz, com a nossa Cpqd que inventou os cartões de orelhão. Bom, mas aqui ninguém precisa disso, TODO MUNDO tem celular. Mas quando se é estrangeiro…

Eu precisava ligar pro Pete, um americano incrível que dirigiu quase 2hs de DeKalb ate Chicago pra me pegar no aeroporto. Tudo graças a Catina, minha amiga brasileira que arranjou tudo pra mim por aqui. Os americanos são fechados, etc, etc… MENTIRA! Pete não só me pegou no aeroporto, como me proporcionou uma conversa agradável, me levou pra tomar café no Starbucks, me levou pra comprar um colchão, e ainda no fim do dia me levou no supermercado pra fazer compras. Essa impressão não foi só o Pete que me passou, mas também o Patrick, um saxofonista sensacional que veio me pegar (sem nem me conhecer) e me levou pra uma jam com Kevin Smith, Cliff e Larry, respectivamente baixista, baterista e guitarrista, estudantes da pós aqui na Northern Illinois University (NIU). Detalhe, os três últimos são negros, e eu juro que eu esperava, se não preconceito, no mínimo uma certa resistência de jazzistas negros, afinal sou branco e estrangeiro. Mas isso não aconteceu, todos me receberam de braços abertos.

Meus roommates, 6 ao todo, embora bem mais jovens (na casa dos 20) e todos colegas entre si, oriundos da mesma cidade (Naperville), também tem sido bastante receptivos e pacientes com meu inglês trepidante, são educados e respeitam bastante o espaço alheio. Fazem dos seus quartos uma casa, trazendo tudo pra cá, quadros, móveis, sofá, tv, etc. O Hunter (não é apelido, é nome mesmo!) trouxe ate uma cabeça empalhada de um bicho que pra mim é um alce, mas ele falou que é antílope, caçado por seu pai. Sim, eu sei, é surreal.. but, just like the movies… Essa mudança se repete todo ano. No fim das aulas, em maio, eles voltam pra casa e levam tudo com eles. Muita gente quando termina o curso, vende tudo nas garage sales. Os caras põe tudo pra fora da casa e passam esperando por possíveis compradores. Hoje mesmo, comprei uma cadeira por 5 dólares. Também é comum ver coisas como colchões e sofás abandonado nas ruas. Mas sempre passa alguém e pega na seqüencia. Até televisão eu vi...

Eu e Pete O'Connell

Eu e Hunter

Mark, eu, Joe, Bryan, Adam, Ryan e Hunter

Hunter, Justin, eu e Adam.

Cliff e Patrick a esquerda, durante o Halloween.

Eu e Kevin Smith.